Renascimento na Prática Diária

Algumas vezes eu ouço que seria preciso que houvesse reencarnação, porque não seria justo que a morte fosse um fim.

Acontece que a morte não é um fim. Veja por exemplo Louis Pasteur. Ele morreu muito antes de eu nascer, mas não é como se ele nunca tivesse existido - tanto que eu sei o nome dele e tenho uma noção de que devo admiração a ele.

Pasteur foi uma pessoa excepcional, mas a verdade é que os mecanismos que propagaram os efeitos dos atos dele até a minha pessoa são absolutamente normais e corriqueiros. Nem todos alcançam fama, mas qual é o valor real da fama?

Certa vez estive presente em uma sala de aulas para uma comunidade carente, e percebi que algumas das pessoas mais empenhadas em tornar possíveis essas aulas eram também alguns dos alunos que mais negligenciavam os estudos fora da sala de aula. Isso me deixou surpreso, até que percebi o que estava realmente acontecendo; aquelas eram pessoas humildes, com menos recursos e confortos do que eu poderia supor num primeiro momento. Uma das razões por que valorizamos tanto o dinheiro é a possibilidade que ele nos abre de comprar a boa-vontade e cooperação dos outros. Mas boa-vontade e cooperação são valiosos mesmo quando não há alguém oferecendo dinheiro por eles.

O nível de instrução pode ilustrar bem os efeitos discretos desses bens preciosos. Ocasionalmente eu consigo reconhecer um filho de professores por causa da forma de falar: nos dias de hoje, se alguém conjuga as palavras com clareza e usa um vocabulário correto e preciso, é boa a chance de que seja pago para manter esse hábito, ou pelo menos conviva com alguém que é. Nenhum de nós é uma ilha, e o ser humano procura se acostumar e pegar gosto pelo que vê com frequência. Uma pessoa que conheço falava muito sobre seu pai estivador e sobre a sua própria vontade de ser médico. Implícita nesse relato emocionado estava a admissão de que não somos apenas o que queremos ser, mas também, e talvez principalmente, o que os outros nos honram com a possibilidade de ser. Podemos em tese aprender qualquer língua falada, mas é sem dúvida muito mais fácil aprender a que nossos conhecidos e vizinhos usam todo dia. Podemos entrar em uma faculdade, mas com isso assumimos uma série de compromissos que podem não ser viáveis sem a cooperação de nossos empregadores, colegas de quarto ou parentes. Nenhum de nós vive no vácuo, nossas escolhas influem nas nossas próprias opções e também nas daqueles que estão próximos e mesmo das dos que estão distantes. A isso, no Budismo, chama-se Originação Interdependente.

Quando aquela aluna em Santo André, uma mulher adulta com filhos pequenos - viúva ou separada, não me lembro bem - decidiu apoiar da forma que podia a iniciativa de melhorar a formação de sua comunidade, ela poderia ter parado para pensar em que ia adiantar para ela pessoalmente. Talvez concluísse que dificilmente conseguiria seu certificado de primeiro grau com ou sem as aulas, e portanto não deveria se incomodar. Mas eu ouso acreditar que, mesmo que tenha parado para pensar dessa forma egoísta, ele pode ter percebido que há momentos em que não importa se nós pessoalmente podemos ganhar algo com uma ação, mas sim se essa ação pode deixar bons frutos que gerem sementes melhores. Eu não acredito que o ser humano reencarne, mas sua vida é eterna; todos nós vivemos indefinidamente - e viemos de um passado remoto - não através de vários invólucros de carne pelos quais pulamos ao longo das décadas, mas sim através de uma rede ou onda complexa de ações e omissões, cujos rumos são guiados por nossas intenções e discernimento, e cujos efeitos transcendem a existência de qualquer um de seus elos. O propósito ou sentido da existência humana não pode ser encontrado nesses caprichos e apegos que vivem dentro de nossos corpos, mas estão solidamente presentes nesse mundo, invisível mas completamente real, das trilhas e correntezas de ações e intenções que nos arrastaram aos nossos nascimentos, que podemos em algum grau influeciar durante nossas existências, e com as quais presenteamos - e amaldiçoamos - aqueles que vivem ao mesmo tempo que nós mesmos e que virão depois de nós.

Metta, Luis.

(Texto postado originalmente no grupo uol.religiao.budista em 16 jul 2004; armazenado em minha página de textos selecionados).