Acredito que o forte estigma que as mulheres separadas sofriam pelo menos até a década de 1980 era de fato inevitável até uma certa época de nossa história. Exceto em famílias e culturas excepcionalmente lúcidas, é difícil transcender a predisposição (que pode ser inclusive genética) a ver na figura feminina a imagem da Deusa, a protetora, aquela que perdoa os nossos pecados e acolhe sem questionar. É um dos arquétipos míticos mais poderosos e universais, bem mais do que o de um deus criador. Ísis, Shakti, Maria, e até mesmo a Rainha da Inglaterra são alguns dos vários aspectos de culto que a humanidade criou para essa necessidade tão profunda. Pessoas e culturas mais tradicionais tendem a abraçar esse modelo e lutar para preservá-lo.
Não é difícil entender por que isso acontece: confiar no arquétipo traz serenidade e respostas para muitas questões dolorosas e difíceis de evitar. Ao adotar o arquétipo sem questioná-lo, a sociedade adquire valiosa estabilidade.
O preço pago por essa estabilidade, porém, é bastante alto, principalmente para aqueles que tem paixões mais fortes. Pois se é verdade que o ser humano aprecia a segurança da estabilidade, é igualmente certo que a esse impulso de conformidade se contrapõe um outro, de transcendência. Estabilidade demais entedia e torna os dias cinzentos e sem brilho. O grau ideal de equilíbrio entre os dois impulsos varia com o momento, as circunstâncias e as pessoas específicas envolvidas. Por esse motivo os relacionamentos humanos tendem a ruir sob seu próprio peso quando não há genuíno amor - a vontade de renunciar ao nosso próprio conforto para aumentar o conforto daqueles que amamos - e boa capacidade de comunicação para que esse amor possa ser frequentemente recalibrado.
Nem toda mulher sente um forte desejo de ser submissa e compreensiva, assim como nem todo homem deseja necessariamente se mostrar combativo e atuante. A cultura não é gentil com os que não se parecem com os estereótipos. São pessoas que dão trabalho, difíceis de entender, de prever, de satisfazer. Para não ter de lidar com suas próprias inseguranças, o meio social tenta "disciplinar" uns e outros, convencê-los a ser mais fáceis de lidar. Muitas vezes consegue. Outras vezes não. A grande ironia da harmonia social é que buscá-la com muita pressa e dedicação sem ter antes desenvolvido um grau adequado de diálogo e fraternidade acaba por tornar insuportáveis as tensões, culminando necessariamente em alguma forma de tragédia ou rebelião.
Eu nunca acreditei, e ainda não acredito, que exista quem realmente goste de ser rebelde, ir contra as regras, ser visto como um indesejável. Ninguém gosta de se sentir discriminado e perseguido. Mas esse ainda é um cenário suave se a alternativa é ser simplesmente anulado.
Eu penso que esse é o dilema que se apresenta de forma tão mal compreendida - e por vezes francamente intolerável - aos casais contemporâneos. Submissão nem sempre é possível, e por definição o convívio com uma pessoa questionadora e intelectualmente ativa traz desafios. Quem mergulha nas incertezas da existência não pode deixar de respingar sobre aqueles que ama e que por isso estão por perto. Amar sempre é se sacrificar em algum grau, e amar aos ousados é uma tarefa particularmente difícil.