Este texto foi originalmente postado no fórum Religião é Veneno, no dia 23 fev 2005 às 06h18m54s

Luz,

a diferença entre o ateu que crê que não existe Deus e o ateu que não crê que existe Deus é a diferença entre o ateu forte e o ateu fraco. Esses são termos tradicionais que não tem pretensão de juízo de valor, nem mesmo de convicção. Os artigos da Wikipedia em português ainda são muito sumários, mas você pode consultar as versões em inglês que são mais completas (há um link lá pelo meio da margem esquerda da tela).

Pessoalmente eu considero que tanto o teísmo quanto o ateísmo são estranhos à verdade científica, e indicam apenas posturas emocionais e espirituais. O erro que muitos cometem, principalmente espíritas kardecistas, é acreditar que crenças sobre a existência de Deus - seja afirmando, negando ou querendo provar que é um mistério sem resposta - tem conexão com o campo da ciência. A ciência estuda a realidade consensual, e as crenças sobre a existência de Deus não fazem parte dessa realidade consensual; cada um tem a sua própria realidade metafísica e é, de certa forma, supremo e inquestionável dentro dessa realidade. Mas essa não é a mesma realidade que a ciência estuda e analisa. Não exatamente por limitação da ciência, mas porque não se pode chegar a enunciados gerais e universais para o que de certa forma é uma preferência estética pessoal. Talvez seja mais difícil para os que crêem no Deus de Abraão perceber essa futilidade, porque esse conceito específico de divindade é quase sempre apresentado de uma forma que convida a acreditar que as realidades metafísicas pessoais deveriam ser todas monotonamente idênticas e sustentadas apenas na crença em um criador supremamente poderoso e supremamente generoso. Tomada superficialmente, sem reflexão profunda e maturidade emocional, essa idéia é terreno fértil para uma série de vícios espirituais e também para a incapacidade de respeitar a diversidade religiosa.

(Cabe um parêntesis aqui: acredito que certas pessoas tem uma fé muito sincera, mas moldada por essa idéia de um modelo único de crença, e por isso desenvolvem uma aflição tão severa quanto sincera ao constatar a dificuldade em chegar a consensos nas questões de fé. Daí possivelmente vem a atitude dos Sodrés e Porissocris da vida).

O método científico não serve para fins espirituais. Não porque seja atualmente imperfeito; ele simplesmente não tem essa finalidade. Quando um teísta ou ateu percebe que não é acurado pensar no ceticismo e no método científico como sendo adequados para "crer" ou "descrer", sua compreensão torna-se muito mais serena e confiável. O método científico e a verdade científica são por definição agnósticos... ainda que por necessidade os cientistas e suas idéias nunca possam ser agnósticos "puros".

Quero comentar especificamente este seu parágrafo: O agnóstico com ou sem provas, não se limita a crer apenas por provas ciêntificas, porém é outro que também esta destinado a nunca conhecer a verdade, já que ainda que não duvide que ela exista, se coloca na posição de um ser limitado a saber isso.. Por isso o agnóstico acredita que não pode conhecer a verdade, isso também de certa forma não deixa de ser uma crença. - Luz, nós somos seres humanos. Por que acha que temos algum tipo de direito inato a conhecer toda a verdade? Você parece acreditar que "se" ateus e agnósticos não se impusessem limitações poderiam conhecer toda a verdade da rica existência de Deus. Bom, eu tenho uma notícia para você: Deus é desnecessário, não apenas para a ciência, mas também para a metafísica. Eu sou agnóstico porque reconheço que a verdade neste mundo que todos nós partilhamos não pode ser obtida em termos da existência ou inexistência do sobrenatural ou da divindade. E ao mesmo tempo sou também ateu forte (ou seja, afirmo que não existe Deus) porque onde faz sentido falar de Deus - na minha realidade metafísica - ele de fato não existe. Outros são teístas, porque para eles a idéia da existência de Deus é inspiradora em vez de deprimente. Ainda outros são ateus fracos, porque se sentem confortáveis e inspirados com a idéia de não ter certeza quanto à existência de Deus. Eu não acho que teístas e ateus fracos estão errados, apenas não concordo com eles. Parece estranho, mas acho que é só porque estamos acostumados a pensar nas realidades metafísicas como sendo idênticas para todas as pessoas. Se você quiser pode inclusive acreditar que Deus é tão abrangente que transcende a própria necessidade de existir para todas as pessoas. Você pode até mesmo acreditar que Deus existe para todos, mas só se revela para os que podem se beneficiar por crer nele. Pode muito bem ser essa a verdade literal - e se você pensar bem, verá que é também a mesma coisa que considerar a crença em Deus como uma verdade pessoal e estética que não precisa fazer sentido para outras pessoas.


Pensador:

você está usando um argumento puramente estatístico para tentar defender a existência da Causa Primeira (Deus). Isso faz perfeito sentido para você, basicamente porque seu senso estético aprova. Mas para outras pessoas salta aos olhos que crer em uma Causa Primeira é crer na existência espontânea de algo muito mais complexo do que um universo que simplesmente existe. Afinal, o criador é muito mais complexo do que a criação, não?

Por isso a sua tarefa (auto-imposta?) de provar que Deus existe porque o acaso não é resposta satisfatória é tão ingrata: VOCÊ não se satisfaz com a idéia de uma existência de origem não-divina, mas o senso estético de muitos outros diz algo muito diferente. Compreende? Se por acaso é mesmo tão importante para você convencer outros a abraçar a crença em Deus, não será com argumentação lógica que conseguirá os melhores resultados; crer em Deus NÃO É uma atitude lógica, é uma atitude estética e metafísica. Para realizar verdadeiras conversões ao teísmo você deve se dedicar a encorajar a inspiração metafísica, que começa na inspiração estética, no exercer da sensibilidade artística. Por isso as religiões (não apenas as teístas) tendem a ser tão preocupadas com arte, a ter cânticos e imagens inspiradoras. A própria forma como se exerce a existência na sociedade é uma forma importante de arte, e por isso temos santos que inspiram, acalentam e inclusive convertem. Você me parece estar querendo ser santo por via do debate lógico. Talvez não seja a melhor maneira.


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