Sobre a série "DEIXADOS PARA TRÁS" e os venenos que ela divulga



por Luis Dantas, Brasília, 13 jan 2005

Nascer e ser criado no Brasil trouxe a mim, naturalmente, um contato praticamente automático com as idéias cristãs. Como tantos outros no passado e no presente, eu era geralmente considerado um "católico não-praticante", porque na época ainda era preciso ter uma certa coragem para pensar em si próprio como um ateu ou agnóstico. Ocasionalmente eu expunha abertamente minhas dúvidas sobre a lógica de crer em um Deus como o cristão, mas naqueles tempos o evangelismo protestante ainda não era o movimento impressionante de hoje, e poucos pareciam realmente interessados em conhecer essa religião tão exótica e dividida em tantas correntes díspares que se costuma chamar de "Cristianismo". Ocasionalmente se admitia a existência das Testemunhas de Jeová (por exemplo), mas a acomodação falava mais alto. Tive o desprazer inclusive de ver essa acomodação crescer a tal ponto que o meio social à minha volta tornou-se espírita kardecista por um período de tempo desconfortavelmente longo. Mas essa é uma outra história para outro momento.

Com o tempo, ficou evidente que eu era ateu forte, agnóstico e nem remotamente cristão - o que não me impediu de ser obrigado a passar pela Eucaristica católica, afinal de contas gente de bem tem de frequentar a igreja cristã, ou assim me diziam na época. Felizmente a Comunhão me deixou praticamente incólume, e eu acabei por encontrar meu caminho como religioso ateu e agnóstico. Pois religião é um assunto sério, e eu não me vi capaz de prosseguir eternamente fazendo de conta que acreditava em um criador caprichoso, um "Deus Ciumento". Penso eu que essa minha descoberta aconteceu na melhor época, no momento em que a sociedade como um todo começa a perceber que "cristão" é um mau sinônimo para "respeitável".

Mas como dizia aquele personagem do Tom Hanks, a vida é como uma caixa de chocolates: a gente nunca sabe o que vai encontrar dentro. E eis que um belo dia me deparo com um canal da TV por assinatura exibindo um filme com título familiar: "Left Behind". Eu já havia ouvido falar da série e conhecia a premissa em linhas gerais (o FAQ do sítio oficial é bastante claro, para não dizer explícito), mas nem o aviso prévio foi o bastante para conter meu desgosto com a mesquinhez patente da premissa e da implementação.

Eu realmente esperava mais do filme. Sei que o Arrebatamento e a Predestinação fazem parte da exegese dos Calvinistas, e meus contatos pela Internet me ensinaram a levar em alta conta as opiniões desse subgrupo cristão. Por alguma razão, eles são afortunados com algumas das cabeças mais sensatas e pacientes que já encontrei nos fóruns sobre religião. Essa é uma feliz circunstância, porque tais fóruns costumam precisar muito de cabeças sensatas e pacientes.

Talvez esses meus amigos tenham desenvolvido suas qualidades de argumentação à base de pura seleção natural, porque "Deixados Para Trás" me deixou dolorosamente claro que há horas em que é preciso ter muita paciência com alguns cristãos. Houve momentos em que tive vontade de eu próprio exorcizar o filme. Êta obra empesteada, sô! Se eu fosse cristão, consideraria uma questão de honra denunciar a mesquinhez e o chauvinismo envolvidos em toda a linha "Deixados Para Trás". Ver a minha própria religião ser apresentada como uma crença materialista e interesseira, onde toda a diversão e mérito reais estão reservados para um Deus todo-vaidoso e seu Inimigo com pose de Bicho-Papão seria uma situação realmente constrangedora. Mesmo não sendo cristão, eu me envergonho dessa série, por respeito a meus amigos cristãos. Sei que eles são gente boa, de carne e osso, com sonhos, medos e esperanças como todo mundo. Mereciam uma representação mais respeitosa de sua crença.

Por que digo isso? Porque "Deixados Para Trás" é uma obra execrável que nunca chega a ser mais do que uma obra do gênero de suspense, não muito diferente dos livros e filmes de espionagem mais rotineiros que se encontra às dúzias por aí, mas sofre a pouca sorte de carregar em si o fedor da pobre e venenosa "teologia" de seus conceptores. Os leitores e espectadores tem de lidar com o constrangimento de ver tudo que realmente importa na história acontecer pela simples exerção das vontades supremas do Deus caprichoso e do Inimigo estiloso e malvadão. Parece ridículo, porque de fato é. Pretensão no lugar de conteúdo, e a mais patética apresentação da oração e aceitação de Jesus como salvador como a panacéia universal para os sete anos de Inferno na Terra que alguns crêem estar por vir.

O Cristianismo é uma religião exótica, sim, possivelmente a mais exótica que conheço. Entre outros motivos por exigir a crença em um Deus Todo-Poderoso que no entanto não consegue ou não quer impedir que exista o mal. Mas uma terça parte da humanidade se considera cristã, e isso por si só já seria motivo suficiente para que Tim LaHaye e seus associados tivessem mais respeito por ela. Cristão, afinal de contas, também é gente e deve ser tratado como tal. Não como gado, não como buchas de canhão para uma briga de chefes de quadrilha interesseiros, onde o que importa é simplesmente escolher o lado mais forte. Esse tratamento da crença no Deus de Abraão como uma mera variação glorificada da opção pelo chefe de quadrilha mais forte na vizinhança é ofensiva ao Cristianismo e aos cristãos. Em suma, a série "Deixados Para Trás" e a ideologia chauvinista e dispensacionalista que ela retrata são um lixo venenoso e devem ser tratadas como tal por todos, principalmente pelos próprios cristãos. É uma questão mais de simples decência do que propriamente religiosa.


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