Este texto foi originalmente postado no fórum da STR em 10 de junho de 2004.


Gauchinha escreveu:

Luis Dantas escreveu:

Acredito que esse ponto depende de uma inclinação psicológica - algumas pessoas se sentem motivadas pela idéia teísta, mas definitivamente não são todas. E entre as que tem esse motivação, nem todas sabem lidar com ela de forma saudável.

(Emoticons de olhos revirando)

Lhe parece estranho que eu diga uma coisa dessas, não é, Gauchinha?

Correndo o risco de parecer preconceituoso, acho que é até natural. Se não me engano você é muçulmana, e pelo que eu li o próprio nome do Islã significa "submissão" (a Deus).

Sabe, para mim essa é uma questão antes de mais nada de estética, de inspiração artística. Tem a ver também com individualidade e sociedade; a crença muçulmana enfatiza valores como a integração com a família e a cultura, a visão de todos os seres humanos como filhos de Deus, a hospitalidade e humildade diante da vontade divina. Não tenho dúvida de que muitos muçulmanos, talvez quase todos, encontram realmente enorme paz e felicidade dentro dessa proposta.

Nada mais natural que, para quem está acostumado a ver o mundo dessa forma, a própria idéia de que existam ateus seja um tanto estranha. Por motivos até certo ponto semelhantes, muitos cristãos também tem dificuldade em entender como podem existir ateus. Desconfio que até se sentem culpados quando tentam aceitar a minha palavra, ou a de algum outro, de que eu sou realmente ateu. Com a melhor das intenções, muitos tentam se convencer de que eu estou "brigado" com Deus, querendo atenção, ou algo similar. Aprendi que para quem cresceu em uma cultura cristã (ou, suponho, muçulmana) pode ser muito natural entender felicidade, virtude e crença em Deus como sendo uma e a mesma coisa.

Não obstante, essa é de fato uma questão basicamente de gosto estético. Eu e muitos outros encontramos muito mais sentido e paz na idéia de um universo que existe sem um propósito e sem uma garantia de justiça. Ajuda-nos inclusive emocionalmente, pois os dissabores da existência passam a ser percebidos como meros acidentes a que todos estão sujeitos, em vez de algum tipo de castigo de uma vontade superior insondável e frequentemente injusta (pelo menos até onde nos é possível compreender). O Universo deixa de parecer sádico para mostrar-se apenas indiferente. Muito desse gosto vem da relação com a figura paterna: o Deus das religiões abraâmicas é basicamente uma exacerbação do papel simbólico do pai. Mas inspiração religiosa não é a mesma coisa que prática religiosa, e convicção não é a mesma coisa que discernimento. A religião teísta e a crença em Deus tornam algumas pessoas melhores, enchem outras de medos sem sentido, fazem de ainda outras hipócritas arrogantes. Desculpe a franqueza, mas é o que observamos em nossas experiências diárias. Talvez fosse bom se crer em Deus necessariamente tornasse as pessoas mais felizes ou mais virtuosas, mas simplesmente não é o que os fatos nos mostram. Não vou negar que há entre nós alguns mais extremistas, mas de uma forma geral nós ateus não somos inimigos da religião, ou mesmo da religião teísta. Apenas não achamos certo que nossa opção de fé seja considerada inferior, e não apreciamos a condescendência pretensiosa que por vezes nos dirigem. Os fatos, e não a declaração de fé, devem permitir que nossas qualidades, virtudes e valores sejam avaliados. Isso se aplica tanto a teístas quanto a ateus.


Muita paz,

Luís Dantas.