Deve ter sido em 1998 ou 1999 que estive em Goiânia e Nerópolis, desfrutando da gentil e calorosa hospitalidade de uma dessas enormes famílias goianas. Esse tipo de família é uma dádiva preciosa, pois traz a chance de nascer, crescer e envelhecer cercado dos primos, tios, irmãos e outros parentes. Esses parentes (e vizinhos e amigos próximos) são tão falíveis e tem tantos defeitos quanto quaisquer outras pessoas, mas o convívio próximo e regular os torna companhias mais auspiciosas do que as pessoas em geral.
A sinergia ("energia nova") criada por uma família extendida (às vezes chamada carinhosamente de "cortiço") cujos membros se conhecem bem e se vêem com frequência é deveras maravilhosa. Isso porque conviver com muitos parentes cria possibilidades de formação de valores e desenvolvimento pessoal que simplesmente não existem em uma família restrita.
Mais uma vez sou levado a mencionar o livro de Peter Singer, How Are We to Live? No capítulo sete, em um de seus trechos mais enriquecedores, esse livro descreve o drama dos sobreviventes de Tristão da Cunha, uma pequena comunidade isolada que vivia basicamente de agropecuária e teve sua sobrevivência posta em risco por uma erupção vulcânica que destruiu suas fazendas em 1961. Os sobreviventes foram levados à Grã-Bretanha para começar vida nova, e se viram privados a rede de cooperação espontânea a que estavam acostumados. Muitos chegaram mesmo a voltar a Tristão da Cunha e tentar reconstruir suas fazendas.
Viver da terra e do mar é uma tarefa árdua, mas os tristaneses podiam contar uns com os outros, e percebiam que teriam uma qualidade de vida muito melhor se cultivassem hábitos fortes de cooperação.
Eu vejo paralelos com aquela família goiana de sete anos atrás. Nela, como em qualquer outra família, havia uma variedade de personalidades e muita expectativa da parte dos pais em relação aos filhos e vice-versa. Mas havia também contato próximo e constante com muitos parentes e vizinhos de todas as faixas etárias. Essa variedade permite que os papéis sociais sejam escolhidos e ajustados de uma forma mais dinâmica e espontânea; os laços tendem a ser criados não apenas por ser necessários, mas também porque são agradáveis para as pessoas envolvidas. Em cada situação há mais espaço para que cada um mostre a seriedade, dedicação e afeto que deseja mostrar, em vez daqueles que sente que a situação pede. Como há muitas pessoas e muitos ambientes, é possível ter atitudes diferentes do que seria visto como normal ou esperado sem com isso causar grandes danos às situações sociais e às pessoas que nelas encontram ninho, guarita, proteção e refúgio.
Em grupos íntimos mais extendidos, a busca pela liberdade pessoal e a busca pela segurança tendem a ser metas complementares em vez de opostas
Eu despertei para essa constatação a partir da observação de que, naquele ambiente daquela calorosa cidade goiana, uma dona-de-casa podia escolher livremente não fazer o almoço, sem maiores cerimônias ou explicações. O resultado tinha mais chance de ser uma visita descontraída à casa de algum parente que morasse perto (para filar o seu almoço) do que alguma tensão mais séria de "ter falhado com as obrigações do lar".
A existência de verdadeiros compromissos, compromissos de coração, criava as condições necessárias para uma expressão mais livre dos sentimentos - e, afinal de contas, não é sempre assim que acontece? Não é sempre o amor que torna possível a vivência da liberdade?
Não foi de uma hora para outra que aconteceu de eu ser convidado para conviver por alguns dias com aquela bela família goiana. Pelo contrário, houve um processo gradual de reconhecimento e aproximação. Em um primeiro momento conheci duas irmãs que moravam em Brasília. Parecia que não se passava um único feriado sem que elas viajassem para Goiânia ou hospedassem elas próprias a algum parente ou mesmo a uma família inteira.
Na época esse hábito me parecia um tanto invasivo. Hoje eu entendo melhor a importância de estar entre "os seus" e buscar retribuir a atenção que se recebe. Aquela troca frequente com tantos parentes pode ter sido em alguns momentos desconfortável, mas foi também o berço que gerou a alegria de viver que eu tanto admiro naquele povo.
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