(Originalmente publicado no fórum da STR)
Leonardo Vasconcelos (Res Cogitans)
Nós ateus nos perguntamos porque as outras pessoas não conseguem enxergar aquilo que consideramos tão óbvio e transparente. Mas talvez a questão se baseie não no fato de conseguir e sim de querer enxergar. O ceticismo oferece um mundo sem magia, sem poesia. Um universo técnico, cheio de complicadas teorias, onde a vida é fruto de uma seqüência de eventos caóticos, além do ameaçador acaso e as frias leis da natureza reinarem imponentes. Isso não significa necessariamente que um ateu não possa ver beleza na vida e no universo, mas ele concebe que o belo não nasce no objeto e sim no observador. A poesia e a beleza, não são características intrínsecas das coisas.
É muito mais confortável acreditar que existe um Deus justo e onibondoso, que junto com seu exército de anjos, zela pela saúde e segurança dos seus entes queridos. Um ser que pela sua onipresença, nunca os deixaria amargar o sabor da solidão. Sem esquecer, é claro, das promessas de recompensa pelos sofrimentos terrenos: os fiéis e obedientes têm direito a um fim-de-semana eterno no paraíso, com todas as despesas pagas!
A realidade é um prato de difícil digestão. É por isso que o ateísmo não possui muitos adeptos, nós oferecemos o lógico, o plausível, o real, por mais duro que seja. Seguimos nosso caminho sem paliativos psicológicos, sem analgésicos existenciais. Nos guiamos ausentes da companhia de um amigo imaginário adaptável a qualquer necessidade ou conveniência. Vivemos sem alimentar a vaidade de que a entidade mais poderosa e perfeita de todo o Cosmos, se interessa e intervem em nossas banalidades, aliás é seu hobby favorito, (daí os patéticos "graças a Deus", "se Deus quiser", "vai com Deus"). Ah, quando ELE fica entediado manda um dilúvio, abre um mar desses aí, ou pede para o filho dar uma voltinha na Terra e nos salvar, ainda não se sabe bem de que ou de quem.
Não! Quando fazemos algo de ruim, não é Lúcifer ou qualquer espécie de espírito obsessor a nos levar para o caminho das trevas! E sim nossa responsabilidade: somos maus... mas também somos bons como todos os demais seres humanos, Yin e Yang por definição. Entendemos que mal e bem são conceitos subjetivos e que ninguém pode personificar exclusivamente um desses adjetivos. E quando se trata de caridade, não a fazemos com o objetivo de somar créditos para encarnações posteriores, nem tão pouco adquirir ingressos para a desfrutar de jardins edênicos ou dos Campos Elíseos.
Sem Deus tudo seria permitido? Bem... pode-se matar, roubar, estuprar, mutilar, torturar, humilhar, sem com isso esperar uma justiça pós-morte... Mas será que é preciso a idéia de alguém nos vigiando 24h por dia, incluindo nossos pensamentos, para que não cometamos crimes? Seria a humanidade tão hedionda que necessita permanentemente da intuição de um Big Brother Cósmico, para não se entregar à barbárie? Se a resposta é positiva, realmente somos uma espécie desprezível. Porém com Deus tudo é permitido também! Basta que se considere que o que se está fazendo é de certo modo aceitável ou perdoável aos olhos de Deus. Os dois lados de uma guerra rezam para suas entidades transcendentais antes da batalha sanguinária, os homens das Cruzadas, da Inquisição, do episódio de Salem, entre infindos exemplos, também consideravam que estavam do lado de Deus. A Ku Klux Klan é formada por cristãos! O Al Quaeda por muçulmanos! E para dar um exemplo mais próximo, basta ouvir as interceptações das freqüências de rádio utilizadas por traficantes, onde ao final de algumas conversas pode-se ouvir um sonoro “Fé em Deus!”. Deus é com certeza um conceito muito forte, entretanto perigosamente maleável.
Costumam nos chamar de desiludidos. A conotação é pejorativa, dando a idéia de que ateus são pessoas decepcionadas com a vida, e frustradas com suas existências. Mas numa outra abordagem semântica, o termo é bem melhor empregado. Desiludido é aquele que não mais vive em ilusão. Se nós somos os desiludidos, você pode adivinhar quem são os iludidos?
Ser ateu é valorizar a razão em detrimento da emoção. Ser forte o bastante para encarar as coisas sem maquiá-las. Não assumir que algo é verdadeiro simplesmente porque assim a vida seria mais confortável ou suportável. Conceber que a morte é o fim derradeiro, por isso, o que tem de ser feito será feito nesta vida, pois é a única! O que nos leva a “carpediar”, aproveitar o dia, as noites, os amores, os amigos... Saber que devemos aproveitar cada minuto, porque a eternidade não nos espera. Não é qualquer um que detém as faculdades necessárias para estar entre nós, embora isso não nos torne superiores, apenas bastante peculiares. E é por essas e outras que me orgulho de ser ATEU.